Pra sempre com você

04 janeiro 2012

Eu não sei muito bem como aconteceu. Só me lembro que naquele dia eu queria ficar sozinha para desfrutar do meu livro favorito, então fui para a biblioteca e sentei na última carteira do lado leste, ninguém gostava daquele lugar, pois ali ficavam as enciclopédias e os livros mais antigos e o cheiro de mofo era quase insuportável, esse era um dos meus lugares favoritos. As pessoas não gostam de coisas velhas, mas pra mim, elas são mágicas, guardam sonhos, respiram segredos e cheiram à história. Assim, eu estava naquele cantinho lendo meu livro quando o vi pela primeira vez, bem, não exatamente o vi, ele estava parado do meu lado me fazendo alguma pergunta, porém eu permanecia tão distraída que nem percebi, só quando ele balançou meu braço me dei conta que tinha companhia. Eu levantei os olhos do romance à contra gosto e encontrei os olhos dele me fitando de maneira interrogativa, como se isso me surpreendesse, todos se espantavam com o fato de que quando eu começava a ler me desligava de tudo, no entanto o olhar dele tinha outra coisa também, um brilho caçoador e ao mesmo tempo curioso.
-Oi. - Ele falou me tirando do devaneio.
-Oi. -Disse com um ar de desinteresse.
Eu não ia ficar me derretendo toda só porque ele tinha dito “oi” pra mim. Eu nem o conhecia, nunca tinha o visto e ainda por cima queria voltar a minha leitura. Mas ao que parece ele não identificou meu desinteresse, pois logo voltou a falar.
-Eu sou novo aqui e estava procurando os livros da Jane Austen, me falaram que ficava nessa direção, mas não os encontrei. -Foi nesse momento que eu o olhei de verdade. Ele não parecia do tipo que gostava de romances calmos e sutis, muito pelo contrário, eu diria que ele preferia muito mais um caso de Sherlock Holmes, com suspense e mistério, ou talvez um romance policial com cenas de sexo.
Ele era alto e magro, só que ao mesmo tempo o seu corpo parecia forte e firme. Tinha mãos grandes, nariz cumprido, um pouco desproporcional ao rosto e cabelos que davam vergonha nos meus de tão lisos e negros, quase como o cair da noite, e chegavam ao meio das suas costas. Com certeza ele não se encaixava nos padrões de beleza, no entanto, naquele momento eu o achei lindo e...
-Então, você sabe onde fica? - Ele perguntou, me trazendo novamente para a realidade.
-Você não tem cara que curti Jane Austen. - Falei e me arrependi logo em seguida, pois o sorriso que ele deu foi de tirar o fôlego.
- Realmente não gosto muito, mas como cheguei à escola no meio do ano, a professora de literatura disse para eu ler qualquer livro dessa autora e fazer uma analise sobre a sociedade da época descrita por ela. - Ele disso isso com o mesmo sorriso relaxado que uns segundos antes tinham me tirado de órbita e fiquei surpresa por ainda conseguir responde-lo.
-Ah... Bom, os livros dela ficam na ala oeste e não leste, e se você quiser uma sugestão, eu leria Orgulho e preconceito. E mais fácil identificar o pulsar da sociedade londrina do século 18 por ele. -Falei de uma forma talvez um pouco efusiva demais, quase nerd. Tinha certeza que ao se virar para ir procurar a ala certa ele riria do meu discurso sobre o livro e a pulsação da sociedade, mas que tosco. Seria melhor ter perdido a fala...
-Então você pode me emprestar o seu?
- O que? - Perguntei meio atônita.
A pergunta dele tinha me pego desprevenida.
-Bom. - Ele falou sem jeito. – Eu reparei que é esse livro que você está lendo e que tem umas observações nas laterais das paginas. Talvez elas possam me ajudar. E que... Bem... Eu sinceramente não entendo nada desse tipo de leitura. Eu prefiro Sherlock Holmes. - Ele disse, e eu não pude conter uma gargalhada.
Mas logo percebi que ele fechou a cara, quem sabe pensando que eu estava rindo dele, então, ainda tentando me controlar expliquei que não estava rindo dele e sim do fato de ter pensado exatamente que o gosto para leitura dele fosse aquele.
Aquele dia foi inesquecível. Nós ficamos horas conversando, depois resolvemos que leríamos o livro juntos e eu o ajudaria a fazer o trabalho enquanto ele me ensinava coisas sobre astronomia e geografia, suas grandes paixões.
E assim o tempo foi passando, os dias, os meses, os anos... E ele teve que ir embora.
Eu não me lembro muito bem como aconteceu, eu só sei que me apaixonei por aquele garoto de 17 anos. Meio rebelde meio descolado. Meio contestador, meio antiquado. Meio tudo, mas perfeito pra mim.
Só que ele precisou ir embora, e agora eu estou novamente na ultima carteira da ala leste da biblioteca, no entanto, nada é como antes. Eu não sou mais uma aluna do colégio, agora sua a professora Olivia e esse não é mais o lugar que eu vinha para ficar sozinha, é o lugar que eu vinha para conversar com o Renato.
Dizem que com o tempo tudo passa, porém, faz 6 anos que eu o vi pela primeira vez, 3 anos que ele foi embora e em todo esse tempo meu amor só tem feito crescer a cada dia mais. Eu me lembro de cada momento nosso, cada risada, cada toque. É certo que as coisas mudam, mas eu não mudei tanto assim, ainda venho para essa ala da biblioteca ler meu livro favorito, que ainda é o mesmo e o cheiro de mofo não mudou muito ao longo desses anos, e...
-Eu sabia que te encontraria aqui - Eu ouvi alguém falando enquanto tocava no meu braço, mas eu não podia me iludir acreditando que aquele era o grande amor da minha vida, já tinham se passado tantos anos. Mesmo assim eu levantei meu rosto para ver quem estava falando e fitei os mesmos olhos de azeviche de 6 anos atrás.
-Re... Re... Nato. - Falei gaguejando.
-Eu não disse que voltava?-Ele perguntou. -Que não importava o quanto demorasse eu voltaria?Eu pedi que você cuidasse do meu coração pra mim. -Ele disse me levantando da cadeira. -Agora eu voltei para que nós cuidemos juntos dos nossos corações.
Então seus lábios encontraram os meus e naquele momento foi como se tudo não tivesse passado de um piscar de olhos.
-Eu tive que ir embora. -ele falou com a boca ainda colada na minha. -E sofri muito com isso, porque estava me afastando da mulher da minha vida.
-Eu sou a mulher da sua vida?-Perguntei. Eu sei que devia fazer muitas outras perguntas. Como por exemplo, porque ele nunca ligou... me escreveu, mas naquele momento a única coisa que eu pensava era que ele estava ali, com os lábios nos meus dizendo que eu era a mulher da vida dele e todo resto se apagou, toda desesperança, toda saudade.
-Olivia. -Ele falou, e meu nome parecia mel pronunciado por ele. -você é muito mais que isso... Você é a minha vida. Eu te amo. - e antes que eu pudesse falar alguma coisa a sua língua já tomava posse de tudo que era seu. E seus braços abraçaram a minha cintura como se nunca mais fosse soltar e eu me deixei colar no corpo do meu amor, porque era ali que eu pra sempre queria estar.

Conto escrito por Taiany Araujo

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